AQUECENDO UM CORAÇÃO | Mais que um casaco

110628frioemsp_f_014

Sábado, mês de Junho, inverno e muita chuva. Esse era o cenário que compôs uma das experiências mais marcantes da minha vida.

Até então era um dia qualquer… Talvez mais um sábado…

Dia de muito frio, nada melhor do que estar com o seu amor e na presença de Jesus. Fomos para o culto de jovens. Ele e eu juntos. O culto rolou e foi muito bom. Ministração sobre como “vencer os medos”, inclusive aqueles quando Deus nos pede para fazer algo, mas não fazemos em razão de medo. Medo de passar vergonha. Medo de perder algo. Medo.

Bem, terminado o culto, nosso objetivo era ir para o evangelismo na Paulista com os nossos irmãos, mas devido a forte chuva fomos convidados a fazer uma mini vigília na casa de um amigo. Não hesitamos e fomos. Mudamos de direção e rumo. Estávamos sentindo Deus naquela mudança de planos.

Chegado a estação marcada com o nosso amigo, nos deparamos com a cena que nos impressionou. Braços cruzados, um cobertor sobre os ombros, barba grande e mal feita, cabelo comprido molhado, bermuda, um tenis rasgado e um olhar vazio. Era um morador de rua fugindo da chuva e do frio das ruas. No mesmo instante, olhamos um para o outro e sentimos que devíamos fazer algo enquanto esperávamos nosso amigo chegar para nos buscar. Algo? Sim! Uma oração. Um abraço. Um olhar amigo. Atenção. E porque não doar uma blusa de frio? Era necessário fazer algo. Jesus estava nos pedindo para cuidar de alguém que fora esquecido pela sociedade.

Passado alguns minutos, nosso amigo chegou e entramos no carro, mas Jesus havia falado conosco. Não podíamos ir embora sem cumprir aquilo que Ele havia nos pedido. O medo bateu à porta. Conversamos com o nosso amigo a respeito, enquanto dávamos voltas ao redor da estação de metro e então entendemos que se era Jesus que estava pedindo para que a gente ajudasse o morador de rua, todas as consequências Jesus também iria cuidar. Digo isso, pois o Rodrigo sentiu de doar o seu próprio casaco à ele e fazer uma oração. Era o melhor casaco que ele tinha. Resistia a baixas temperaturas e até mesmo neve. Ele havia comprado na Europa. O que fazer? Estacionamos o carro. Descemos debaixo de chuva e fomos de encontro com o morador de rua. Nos apresentamos e começamos a conversar com ele… Sem demora, o Rodrigo ofereceu o casaco, porém ele não aceitou de primeira, insistimos pois vimos que o cobertor em seus ombros estava muito velho e completamente molhado. Após algumas umas insistências ele disse “tudo bem… A gente não sabe o dia de amanhã, né?!”  Concordamos com ele. Rodrigo então tirou o casaco, cheio de alegria e compaixão, e colocou no morador de rua o ajudando a vestir e fechar o casaco. (Sou suspeita para dizer o quanto eu o admiro… Mas aquela cena, vendo ele tirando o casaco e colocando no morador de rua, fez meu coração explodir de alegria e amor por alguém que tem andado ao meu lado. Que privilégio o meu).

Vimos então, que ele precisava de novos sapatos. Oferecemos a ele, porém ele como muita humildade e olhar de gratidão disse que não era preciso, pois já tínhamos doado o casaco à ele. Insistimos. Precisávamos fazer a obra por completa. Então ele com um sorriso singelo, aceitou.  Pedimos à ele para aguardar ali, enquanto íamos pegar novos sapatos para ele na casa do nosso amigo. Fomos e voltamos e lá estava ele aguardando. Talvez crendo que não voltaríamos. Mas lá estávamos com os novos sapatos, meias e uma calça. Entregamos a ele. Ele com um olhar de “porque estão fazendo isso por mim” aceitou e ficou muito feliz. Logo colocou os sapatos, a meia e a calça em uma sacola de plástico onde havia ali também alguns alimentos e disse que assim que tomasse um banho colocaria o sapato e a calça daria para algum amigo na rua.

Pedimos à ele a oportunidade de orarmos por ele. Então colocando nossas mãos sobre os ombros dele, e segurando uma de suas mãos, oramos o abençoando e pedindo à Deus para cuidar dele. Terminado a oração, ele começou a dizer que vivia na rua há 20 anos e o motivo dele estar ali era porque sofria maus tratos com seu padrasto. Sua mãe e suas irmãs tinham problemas, ele usou o termo “loucura”. Disse também que na época em que vivia com sua família ele ia à igreja e que acreditava muito em Deus. Sentimos que seu coração era especial e que Deus se agradava do coração dEle e por isso nos enviou ali para cuidar dele. Dissemos isso a ele e o convidamos para ir à igreja conosco algum dia. Ele no mesmo instante disse que não iria, pois sentia muita vergonha. Perguntamos a ele, vergonha de que? Então ele respondeu que sentia vergonha por ser quem ele era. As condições que ele vivia. A maneira como ele se vestia e vivia. Aquilo entristeceu o meu coração, pois o primeiro lugar onde não poderia haver vergonha de ir, mas sim ter uma concepção de um lugar que acolhe e que ajuda teria que ser a igreja. E ele se referiu as igrejas evangélicas. Isso me fez refletir…

Será que Jesus nesses dias atuais estaria mais dentro das igrejas ou fora? As igrejas atualmente, muitas luxuosas, se tornaram verdadeiros clubes onde o morador de rua, a prostitua e o gay não podem entrar, pois se sentem envergonhados por tamanho preconceito que há no meio do povo. A igreja é um hospital! Um lugar de transformação e precisamos entender que ela foi estabelecida para que haja comunhão entre todos. Isso não quer dizer concordar com as práticas erradas. De certo que Jesus estaria em meio aos moradores de ruas, ajudando prostitutas e aconselhando gays sobre os seus princípios. O amor transforma tudo. Se somos de fato cristãos, temos que viver como Ele. Estar onde ninguém quer estar. Dar atenção e amor aos rejeitados pela sociedade. Mostrar o caminho da Verdade e Vida. E isso me mostra que vale muito mais a pena ser usado quando ninguém está vendo do que ser usado em grandes púlpitos frente a multidões.

Fomos lá talvez para ensina-lo algo, mas creio que aprendemos muito com ele. Diminuir para que Ele apareça. Isso é evangelho. Aquecer o coração vai muito mais além do que aquecer um corpo que foge do frio. O coração dele foi aquecido pelo cuidado e amor de Jesus.

Deixe uma resposta