ÚLTIMO CHORO ANTES DO IDE | Por Lara Dias

Eu sabia que algo tremendo dentro de mim aconteceria… ao acordar na madrugada de 18 de julho de 2018 às 02:30 da manhã, para me arrumar e sair, eu sabia que ao deixar minha cama, um novo eu repousaria sobre ela dias mais tarde.

Finalmente tinha chego o dia da tão esperada viagem missionária à cidade de Cocos na Bahia, eu acredito já ter relatado em textos anteriores aqui no blog sobre como meu coração ansiava por este campo, Deus tem um tempo certo para todas as coisas, o que eu achava que era impedimento humano, na verdade era preparação de Deus para quando chegasse o dia determinado para essa viagem.

Desde o preparo tudo contribuía para que eu tivesse convicção de que algo novo estava preparado para que eu vivesse neste tempo precioso, o primeiro fator foi o de eu estar “sozinha” nesta viagem, nas últimas duas eu estive na companhia de amigos mais próximos e minha irmã, nesta viagem a Cocos, circunstâncias contribuíram para que meus “amigos de fé” digamos assim, não pudessem ir dessa vez. Eu temi, me preocupei, porque na minha cabeça limitada eu achei que estaria só, que não conseguiria me enturmar com a equipe, e desenvolver os propósitos ali designados. A tensão diante das responsabilidades que vamos encarar em campo (pelo menos para mim) nos faz ficar presos aos pensamentos e receios mais bobos que no dia a dia natural não nos prendemos.

Muitas vezes achamos que nossa capacidade de realizar coisas, está ligada à nossa dependência por pessoas, quero lhe dizer que não, temos que sim caminhar com amigos na fé, partilhar o ministério com aqueles que Deus designou para estar conosco, mas Deus também tem propósitos na nossa “solidão” momentânea. Ele nos torna dependentes exclusivamente Dele, assim me senti, dependente dele, até mesmo para me relacionar com as pessoas. Pois sim, até mesmo na forma como se relacionar com as pessoas, se permitirmos Deus tomará frente e nos aproximará das pessoas certas, que nos farão crescer, que nos ajudarão amadurecer, afinal estamos convivendo com diferentes criações, mas servindo um mesmo Deus, e ali objetivados num mesmo alvo que era pregar o evangelho a todos quanto tivéssemos oportunidades.

Enfim, não especificamente sobre relacionamentos interpessoais quero me prender, mas confesso que até nesse sentido essa missão contribui para uma evolução em minha vida, me sinto mais desinibida a me relacionar com pessoas, para fazer amizades e principalmente para apresentar meu melhor amigo a elas, Jesus. Por isso mais uma vez ressalto, não permita as circunstancias inversas ao que você gostaria, serem um impedimento para que você possa viver o novo de Deus, e crescer com Ele, há muitos detalhes em nossa natureza humana que precisamos encontrar em nós mesmos, as vezes é necessário saírmos da nossa zona de conforto e esconderijo nas pessoas, para que Deus revele a nós a natureza Dele que em nós Ele tem depositado.

Para essa ocasião, estar em missões na cidade de Cocos, eu tive que esperar por 04 anos, eu sempre questionei o porque de tantos impedimentos para que eu não fosse, tanta gente voltando transformada desse lugar, avivada, com testemunhos maravilhosos, eu queria viver tudo isso. Deus nos pega de calça curta quando menos esperamos, Deus me trouxe um constrangimento terrível nos últimos três anos, pois eu queria tanto, tanto ir… para que? Eu queria os minutos, horas ou até mesmo alguns dias de “fama” em meu ministério pelos grandes testemunhos? Por talvez ter voltado uma pregadora nata? Por ver o coxo andar? O cego ver? O surdo ouvir? Expulsar demônios?

E a glória de Deus onde entraria nisso tudo? Confesso que após me reconciliar com Cristo e reconhecer o seu sacrifício na cruz a nós reles pecadores, nunca senti tamanho constrangimento diante de Deus. Eu sem perceber estava deixando com que meu eu crescesse mais do que a glória a Deus.

Por isso esperei, por isso orei, Deus não permitiria que meu ego se inflamasse por algo que não pertence a mim, involuntariamente eu estava ansiando por algo que não me compete nem nessa oportunidade e nem em qualquer outra.

Ao sair de casa com destino a essa missão, eu fui ao banheiro, lavei meu rosto, ao voltar os olhos ao reflexo do espelho, a visão já estava embaçada e os olhos marejados. Um constrangimento e ao mesmo tempo gratidão invadiam minha alma, eu não sou, nunca fui digna de receber essa incumbência, essa confiança divina, Deus ama almas e confiou a nós homens que já o temos por sacrifício vivo, já o temos como Pai e salvador, o dever em amor de alcançar e resgatar todos que se perderam do bom pastor ou que nem mesmo chegaram a conhece-lo. Imagina você entregar o que você mais aprecia a alguém para que seja cuidado e amado também? Deus assim o faz com vidas, com almas, Ele partilha desse amor conosco. Eu compreendo que ao amarmos almas, podemos compreender um pouco a essência de Deus, porque nosso Deus é amor, quando amamos estamos sendo semelhantes a Ele.

Esse mesmo choro de gratidão e constrangimento eu tive ao voltar para São Paulo, é difícil descrever e confesso que não serei totalmente fiel em palavras ao novo eu que eu sabia que chegaria aqui, Deus me moldou, e creio que a todos que estavam lá, numa equipe de mais de 50 missionários, na qual eu não tinha afinidades com as pessoas, eu tirei grandes aprendizados, conheci e fiz amizade com homens e mulheres de Deus, nós nos alegramos, choramos, regozijamos e voltamos pra São Paulo com a sensação de missão cumprida, em 12 dias de viagem, dormindo em colchão de ar, tomando banho de cano, de caneca e dividindo também o chuveiro da igreja local, alimento não nos faltou, alegria não nos faltou, saúde não nos faltou, cuidado de Deus não nos faltou.

Testemunhamos surdos ouvir, enfermos se levantarem dos leitos, Deus providenciou alimento aos que não tinham, e para a glória de Deus 736 vidas renderam-se aos pés de Jesus e o aceitaram como único e suficiente salvador.

“Aquele que parte chorando, enquanto lança a semente, retornará entoando cânticos de louvor, trazendo seus feixes. ” Salmos 126:6

Deixe uma resposta